sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Simpatia para amarrar marido ( infalível, poderosa, imediata)



Você vai precisar de uma ovelha com bastante lã. Bem fofinha. De preferência, consiga uma. Uma ovelha comprada não tem a mesma força espiritual que tem uma ovelha caçada.

Vai precisar também de uma máquina de cortar cabelo,  uma cadeira de madeira maciça, pétalas de 24 Rosas vermelhas, algumas gotas do seu perfume favorito,  cristais de Quartzo Rosa , incensos de Dama da Noite, uma banheira grande e alguns comprimidos daquele ansiolítico da moda que todo mundo usa ( o de 2mg).

Preparando a lã da ovelha:
Ofereça à ovelha  2  ou 3 comprimidos (dependendo do tamanho da ovelha). Enquanto os comprimidos fazem efeito, prepare o banho da ovelha. Coloque água na banheira (suficiente pra cobrir o animal até o pescoço), as pétalas, os cristais e o perfume. Assim que a ovelha dormir, coloque-a na banheira. Ela deve permanecer nesse banho por no mínimo 2 horas. Mas atenção: A ovelha não pode morrer afogada portanto, é provável que você precise ficar segurando sua cabeça da durante essas 2 horas. Deixe-a secar naturalmente.

Próximo passo:
Tose a ovelha cuidadosamente. Lembre-se,  quanto mais carinho você oferecer ao animal,  mais carinho seu marido terá com você. Porém, sem exageros, querida. Não se exceda. A prática da zoofilia poderá assustar o animal e consequentemente o seu marido.

Preparando a amarração:
Você deverá utilizar toda a lã da ovelha. Vá trançando os chumaços, dando pontos bem fortes para que a trança não se desfaça. O objetivo é formar uma corda bem longa e firme. Vá trançando e fazendo seus pedidos.

Importante:
Seu marido não pode nem sonhar que vocês estão com uma ovelha em casa. Guarde alguns comprimidos para dopar a ovelha novamente e esconda-a antes dele voltar do trabalho. Esconda também  a banheira, guarde a água com perfume e as pétalas para lavar a roupa do seu marido e ponha os cristais em baixo da cama no lado em que ele dorme.

Preparando seu marido:
Receba-o com muito carinho. Uma comidinha gostosa (batizada com alguns comprimidos do mesmo remédio esfarelado, lógico). Assim que ele começar a ficar sonolento, sente-o na cadeira de madeira maciça. Deixe-o adormecer ali mesmo. Assim que ele pegar no sono, comece a amarração.

Concluindo a amarração:
Lã banhada, seca e trançada, ovelha e marido dormindo, comece o ritual. Acenda algumas varetas do incenso. Invoque a espiritualidade e as forças da natureza em voz alta. Amarre uma ponta da lã em um dos pés da cadeira. Vá passando a corda em torno da cadeira e do seu macho. A cada volta completa, de um nó cego. Deixe uma ponta da lã para amarrar no encosto da cadeira no lado oposto ao primeiro nó. Continue invocando.

Despachando a ovelha:
Enquanto seu marido dorme, despache a ovelha na porta de uma igreja de Santo Antônio. Não esqueça de cobri-la com uma mantinha já que a bicha está pelada. Lembre-se: A ovelha deve ser muito bem tratada até a hora do despacho.

Chegando em casa, coloque a cadeira contendo o seu marido ao lado da sua cama. Retire qualquer objeto cortante que tenha próximo ao local onde você escolheu pro seu homem ficar. E assim,  concluímos a amarração. Tomou cuidado para amarrar com força todos os nós? Ótimo!  Cara, na boa,  essa simpatia de amarração é infalível. E a única maneira de amarrar seu marido de fato além de ter efeito imediato. Pronto,  ele já está amarrado! Se você não solta-lo, ele permanecerá amarrado por tempo indeterminado.

Melhor dia para fazer:
Nas primeiras horas da lua crescente de uma sexta-feira de verão. Não pode estar chovendo nesse dia. Porém, se tiver muita pressa pra fazer,  basta colocar o conteúdo de 3 bisnagas daquela super cola no assento da cadeira antes de senta-lo e prender a corda com reforço de 3 cadeados.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Banheiro

  Tomar banho, escovar os dentes e fazer aquelas duas outras coisas que as pessoas costumam fazer no vaso diariamente (Eu não faço. Mas sei que a maioria faz.),  estão muito longe de serem as únicas utilidades de um banheiro. Aqui em casa somos 5.  E sem dúvidas esse é o cômodo mais disputado. 
  No meu banheiro,  torna-se banho,  escovam-se os dentes e eliminam-se corpos estranhos. Alguns ensaiam canto,  outros lêem,  muitos jogam no celular,  eu me maquio,  assistem a vídeos,  escutam música, estudam,  algum irmão se tranca pra se livrar de outros irmãos e eu me tranco pra me livrar de todo mundo. São incontáveis os motivos que nos levam em direção ao banheiro.
  Muitos escrevem no banheiro.  Em todos os sentidos. Tem aqueles que se inspiram enquanto fazem uso do banheiro e tem outros que se distraem escrevendo na parede e porta. Quem nunca leu num reservado da escola ou do shopping a frase mais famosa de todos os tempos que diz que "O banheiro é um lugar de solidão profunda onde a m* bate na água e a água bate na bunda"?  Cara,  Na Boa,  essa é clássica!
  E é verdade.  Solidão profunda...   Muitos usam o banheiro pra chorar.  Entram com aquela cara de que tá tudo bem,  se trancam e choram até desidratar. Se descabelam,  emitem sons estranhos enquanto se encolhem,  arrastando as costas na parede até que cheguem ao chão. Quando a reserva de água do corpo se esgota em lágrimas, a pessoa levanta,  respira fundo,  se olha no espelho e constata que está arrasada. Então ela lava o rosto,  penteia os cabelos,  mulheres retocam a maquiagem (fazendo uso abusivo do corretivo,  pra esconder o nariz vermelho e as olheiras) e sai, como se nada tivesse acontecido.
  O banheiro é mágico! É uma dimensão onde o tempo estaciona.  É um lugar que induz ao perdão. Sim!  Você se atrasou pra escola,  pro trabalho, experimenta dizer que precisou usar o banheiro bem na hora de sair de casa e veja se não será perdoado imediatamente. É mesmo mágico. Calma aí...
  -Que foi, meu filho?  Ãh? Tô sim,  Tô viva, meu amor, pq? Jura? Tem 3 horas e meia que eu tô aqui?  Vc tá atrasado?  A hora do almoço já passou?  Perdeu a primeira aula!  Caramba...  Calma aí, já tô saindo.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

O que eu escrevo?

 Descobri que escrever é uma das melhores formas de desabafar. E, parece meio louco mas, a cada pessoa que lê, sinto que desabafei mais um pouquinho, sem ter que passar pela tortura de falar tudo de novo.

Tem dias em que fazer piada fica difícil. Que a graça das coisas se escondem muito bem escondida. Os fatos reais divertidos, são esquecidos. A imaginação só imagina o que dói. Tem dias em que o coração aperta... Bem apertadinho. E aí?  Escrevo o que de bom? Não sei.

Vou escrevendo qualquer coisa chata pra tentar esvaziar um pouco esse saco enorme de desânimo. Pesado, chato de carregar. A medida em que escrevo, as memórias engraçadas vão voltando. Lembrei agora do episódio do ovo no microondas. Queimei a cara toda! Um momento de insanidade que ainda rende aqui em casa. Um dia escrevo sobre isso... Só adianto que não fiquei com cicatriz no rosto por bondade divina. Era pra ter ficado com a cara toda marcada...

Sem cicatriz no rosto, olha que ótimo, lembrei que ainda sou linda! Já pensou?  A essa altura eu podia estar desanimada e deformada! Seria infinitamente pior. Linda e um pouco menos chateada que a cinco minutos atrás. Já está de bom tamanho.

Me disseram uma vez que sorrir é minha marca registrada. Isso pq no meio de uma choradeira ridícula numa mesa de bar, me deparei com um casal esquisitíssimo que se aproximava. Uma senhora vestida no melhor estilo Rogéria e um senhor que, com certeza, tinha complexo de Elvis. O topete por pouco não o deixou entalado na porta de entrada. Nessa hora eu chorava muito e reclamava da vida. Até que os vi e imaginei - a festa a fantasia não é aqui - tive um ataque de bobeira e comecei a rir muito, sem consegui explicar o motivo de tantas risada. Depois disso, parei de chorar. A propósito,  Valeu casal!

De fato é mesmo. Tô chateada, tô desanimada, mas tô sorrindo. Talvez não gargalhando. Mas tô sorrindo. Agradecendo por ser linda, sem cicatriz no rosto e ao casal esquisito... e sorrindo! Agradecendo muito aos meus ataques de bobeira, que me salvam do desânimo constantemente e sorrindo! E cara, na boa, não tenho dúvidas que, até pros dias difíceis, rir será sempre o melhor remédio!

Opa, escrevi!


terça-feira, 8 de setembro de 2015

Bêbados - Insanos porém Rentáveis.

Esqueci minhas chaves. Como não havia ninguém em casa e já era tarde, fiquei ali, próximo ao portão do prédio. Enquanto esperava alguém chegar pra eu entrar, observava a movimentação do bar da esquina.

Na mesa mais próxima haviam duas senhoras. Até falavam baixo mas gesticulavam tanto que eu já aguardava o momento em que alguma delas deslocaria o punho. Altas, eram só as gargalhadas, típicas de quem está falando sacanagem. Copo vazio ali, era proibido. Não bebiam, entornavam. Duas esponjas vestidas como novinhas e carregadas na maquiagem. Hum... Tentando esconder a idade. Impossível! Aparentemente, prontas pro crime, no aguardo de algum garotão bobo que caísse em suas lábias ensaiadas e batidas.

Perto delas um casal visivelmente bêbado. Olhos marejados, riso frouxo. Carinhosinhos até demais. Recém namorados? Talvez. A cada cinco minutos um levantava pra ir ao banheiro. A essa altura,  fechar as calças pra que? Tenho dúvidas se as calças abertas eram pra deixar mais prática a próxima ida ao banheiro ou se era um detalhe tão sem importância que eles nem lembravam mais. Ou talvez, pra facilitar a troca de.... Bom, melhor deixar pra lá.

Tinha uma mesa cheia de homens. Uns coroas que falavam tão alto que era impossível não ouvi-los. O assunto... Hora futebol, hora mulheres da vida, aí pincelavam rapidamente pelas esposas (que se ouvissem a conversa seriam ex-esposas) e logo voltavam pro futebol e pras mulheres da vida. Gritavam, cuspiam no chão, avisavam pra todos aos berros que iam "dar uma mijada" e jogavam o resto da cerveja do copo fora pq estava quente. Essa mesa era repulsiva. Homens podem ser muito nojentos. Tanto quanto as mulheres da vida que eles costumam traçar. Ah... Como eu queria conhecer suas esposas....

Tinha uma garotada também. Com seus dezoito a vinte anos que exibiam seus copos sempre cheios e quentes, consequência de um porre já na primeira golada. Coitados, aprendizes de bebuns. Mas confesso que ouvir a conversa deles e observa-los era engraçado. Galera, só um conselho: Quando saírem pra beber, por favor! Meninas de saia, pagam calcinha. Meninos sem cueca, pagam cofrinho. Aliás, ali tinha uns cofrões... Me sentia uma fofoqueira e tinha ódio dos coroas nojentos que me atrapalhavam de ouvi-los melhor.

Por ser uma sexta feira e um local movimentado, passavam por mim outros bêbados oriundos de outros bares, mercados e lojas de conveniência. Um mendigo que usava sonda e segurava cuidadosamente sua garrafinha de pinga. Um garoto tropeçou e caiu na minha frente e seu amigo só tentou salvar a garrafa de Vodka que ele levava. Era uma vez uma Vodka e o nariz do garoto, que coma a queda, cortou o nariz no caco da vidro da garrafa quebrada. Sangrava horrores.

Comecei a pensar em escrever uma tese sobre bêbados mas, logo depois desisti. Percebi que o que dava dinheiro mesmo era dar porre nos outros. Não existe crise pra esse segmento. Aliás, com a crise, o bebum bebe mais. Quanto mais preocupado fica, mais bebe. Mais dinheiro gasta, mais preocupado fica e mais ainda bebe. Cara, na boa, achei a mina de ouro. Vou fabricar cachaça.



segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Beijinho no ombro pra você!


  É uma dessas ai, da vida. Coroa, mal apanhada, com hábitos questionáveis,  mal comida. Aliás, parabéns aqueles que conseguiram janta-la visto que, um de seus últimos parceiros tinha disfunção erétil. Será que tinha mesmo ou não conseguia encarar o dragão? Acho que nunca vou saber. De qualquer forma, vamos dar um viva aos São Jorges que, corajosamente, finalizaram esse dragão!  Um não. Dois. VIVA! VIVA!
  Entrou na minha vida se fazendo de coitada, boa moça, de família. Aham... Mente tão bem a infeliz, que cheguei a me condoer com sua vida maldita. Desgraçada! A minha lição?  Dar mais ouvidos a minha intuição,  a primeira impressão. Sempre.
  O divertido da vida é que todo dia pode ser carnaval e que todos são livres pra usarem suas máscaras. Mas cuidado. Todo dia é dia delas caírem também. E quando caiu a desse ser, que susto! Conseguiu ser ainda mais feia por dentro que já era por fora.... Misericórdia, Senhor! Socorro! Que monstro!
  Confesso que perdi alguns momentos pensando num castigo pra essa p#%@ velha. Mas cara, na boa,  nada seria tão cruel quanto a sua própria realidade vivida por longos e tenebrosos anos. Velha, feia, mal amada, seca, "experiente", sozinha. A vida já se encarregou de castigar bastante. E indo pela linha da "grande pensadora", eu "desejo a todas inimigas vida longa, pra que elas vejam a cada dia mais nossa vitória", e mando pra ela de presente, um longo e demorado beijinho no ombro.


Vídeo extraído do canal da Valesca Popozuda Oficial - YouTube 



sexta-feira, 4 de setembro de 2015

A mente perturbada de um fofoqueiro

Me arrumei e saí de casa. Levava comigo o trabalho da faculdade e uma mala preta cheia de roupas que tirei do meu armário para doação. A mala, eu estava indo deixar na casa da minha mãe, que se encarrega de doar tudo que eu não quero mais. Depois eu entregaria o trabalho.
  Entrei no ônibus, toda enrolada. Ainda bem que estava vazio, além de mim, somente um senhor. Logo que me acomodei, o celular tocou. Era uma amiga que iria me ajudar no trabalho, caso houvesse necessidade.
  -Oi amiga.
  - E aí, o trabalho?
  - Relaxa, amiga. Consegui.
  - Fez tudo, já?
  - Matei. Deu pra fazer tudo sozinha.
  - Ficou muito grande? Dividiu em tópicos?
  - Tá tudo dividido. Tá aqui comigo. Tô indo despachar isso logo.
  - Ah, que ótimo! Depois eu te ligo pra gente conversar. Acabei de chegar da academia. Vou tomar um banho.
  -Ih... Vai lá. Tem que correr antes que comece a feder! Hahaha. Beijo. 
  - Beijo, tchau.
  Nesse momento percebi que o senhor se afastou de mim e foi cochichar com o cobrador. Não entendi mas também não era da minha conta. Coloquei meus fones e me distrai ouvindo música e olhando a rua através da janela.
  Mais a frente observei uma viatura da polícia ao lado do ônibus. Normal. Da rua transversal, vieram mais duas viaturas. Comecei a ficar preocupada e a imaginar que talvez, o senhor tivesse assaltando o cobrador. Entrei em pânico e pensei - vou morrer - então, apertei o botão pra descer no próximo ponto. O motorista parou pra eu descer. As três viaturas pararam também. Nesse momento a minha hipótese havia se tornado fato. Desci do ônibus e saí correndo temendo uma bala perdida.
  Percebi que os policiais corriam atrás de mim. Minha reação imediata foi correr ainda mais rápido. Mas aí me veio a cabeça -Talvez eles queram uma testemunha - então parei. Eu parei mas a polícia não parou. Fui surpreendida com uma mata leão seguido da frase:
  - Cansou né. Quietinha aí que eu não quero te machucar. Vamos pra viatura e trás esse defunto com você.
  Ok. Eu fui pra viatura mesmo sem entender nada. - Defunto? Será que tem um defunto na viatura. Poxa, eu só queria entregar as roupas e o trabalho - Pensava, chorava e ia pra viatura.
  -Não chora não. Só vamos abrir essa mala na delegacia.
  Não entendia nada mas, cara, na boa... também não tinha condições de falar. Chegando na delegacia, levada pelo braço como se fosse uma fugitiva do pinel, comecei a ter noção do que podia estar acontecendo quando o policial que me "conduzia delicadamente" falou pra delegada:
  -Essa mocinha matou e esquartejou o marido. O presunto tá na mala e ela estava no ônibus indo despachar o corpo. Recebemos a denúncia e a interceptamos.
  Aquele maldito senhor.... Ele não se afastou de mim pra assaltar o ônibus. O coroa fofoqueiro me ouviu falando no telefone, entendeu tudo errado e chamou a polícia.
  Depois de tudo esclarecido, saí da delegacia dizendo que voltaria em breve. Assim que eu achasse o coroa fofoqueiro e cortasse ele em pedacinhos.



quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Sala de espera

  Se tinha uma coisa que eu detestava era ir a médico ou dentista. Não pelo medo dos profissionais ou dos diagnósticos, mas pelo longo tempo perdido nas salas de espera. Esse tempo longo, parecia interminável. Era sempre a mesma coisa. Aquela música de fundo ou a tv ligada, quase sem som, um verdadeiro exercício de leitura labial. Eu, sempre muito agitada , ficava tentando arrumar uma desculpa pra ser atendida na frente de todo mundo ou pra remarcar a consulta logo no primeiro horário de um outro dia qualquer. Até que um dia, precisei consultar um psiquiatra.
    Cheguei no consultório e entreguei meus documentos pra secretária. Sentei. À minha esquerda havia um casal. A moça espremia os cravos do rapaz enquanto ele abria e fechava a pulseira do relógio. À minha direita havia um senhor. Acredito que no caminho pro consultório, ele tenha adquirido o seu primeiro celular. Pq? Então.... Ele escolhia uma campainha pras chamadas recebidas. Ligava pra alguém e dizia:
  - Querido, me faz um favor. Retorna pro meu celular. Preciso fazer um teste.
  A pessoa provavelmente pensava que o celular dele estava com algum problema e ligava. Tocava aquela campainha super alta que ele fazia questão de ouvir quase até o final. Quando ele finalmente atendia...
  - Obrigado, querido. Já tirei minha dúvida!  -  Acabou? Não. Ele escolhia outra campainha e repetia todo o processo. Ah, muito inteligente, ele sempre ligava pra pessoas diferentes.
  No sofá da frente havia uma moça com um menino. O garoto usava sua arma imaginária para acertar a secretária. A secretária fazia caretas para o menino. Sabe aquelas caretas que as crianças fazem pra outras crianças quando elas não se gostam? Dando língua e mostrando os dentes? É, assim mesmo. A moça que acompanhava o garoto estava ali só de corpo presente. Ela usava fones de ouvido, balançava a cabeça com os olhos fechados e cantava num idioma que eu não identifiquei até hoje. E desse jeito, eles permaneciam até que o médico os chamassem pra consulta. Comecei a mudar o meu conceito sobre salas de espera. Percebi que observar os outros podia ser divertido.
  Chegou a minha vez e pensei "A diversão acabou. " Até que reparei que o médico provavelmente tinha TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo). Depois de cada frase que ele concluía, enrolava as pontas do bigode. Sempre que eu tirava as mãos da mesa, ele limpava o local com um lenço de papel descartável e álcool gel. Percebendo isso, comecei a apoiar e tirar a mão da mesa cada vez mais rápido. E com isso, ele gastou uns 15 lenços e meio litro de álcool. E eu, que procurei ajuda profissional temendo uma crise depressiva, a essa altura tinha lágrimas nos olhos consequentes das gargalhadas que eu tinha que engolir.
  Passei a observar as pessoas nas salas de espera. Aguardar a minha vez havia ficado divertido principalmente nos consultórios de Psiquiatria e Psicologia. Percebi que médicos, psicólogos e as respectivas secretárias também não são lá muito normais. E assim eu me encontrei. Em meio aos não tão normais, comecei a ver graça também nas minhas loucuras. E cara, na boa,  as salas de espera de psicólogos e psiquiatras passaram a ser um dos meus programas favoritos.