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sábado, 17 de outubro de 2015

O doutor surtou!!!


*Para total compreensão da crônica a seguir, recomendo a leitura de "Sala de espera", publicada dia 03/09/2015. 

Entrei no consultório do meu psiquiatra. (Aquele meu médico que tem TOC)
Em poucos minutos percebi que ele estava particularmente transtornado. Tentei prosseguir com a minha consulta, em vão. Sutilmente, fiz o médico de cobaia num breve estágio.

- Dr, percebo que está tenso. Algum problema? Posso ajudar? Posso lhe ouvir, se quiser.

- Reparou no paciente que saiu do consultório ainda agora?

-Não, Dr. Porque?

- Ele é um advogado criminalista. O problema é que.... deixa pra lá. Não posso expor um paciente.

- Como quiser, Dr. Porém, se for realmente necessário desabafar, pode contar com o meu sigilo.

Continuamos (ou melhor, tentamos continuar) a consulta. Mas ele não conseguia se concentrar. O suor pingava da testa. Uma mão permanecia no bigode enquanto a outra passava o perfex na mesa (intensamente, sem intervalos. E olha... Eu me controlava para não apoiar as mãos, a fim de não provoca-lo dessa vez!). Um pé batia no chão em um ritmo frenético. Eu, presenciando aquela agonia também não conseguia falar sobre o que precisava.

- Posso confiar em você? Preciso falar. Mas a ética...

- Dr, o que for dito aqui no consultório permanecerá aqui. Fica tranquilo. O que houve?

-Esse paciente que te falei. Criminalista. De tanto defender e conviver com bandidos,  começou a praticar alguns delitos também. Ele diz que faz sem perceber e que já é incontrolável. A última dele foi furtar da farmácia algumas caixas do remédio que eu o receitei.

- Ele realmente precisa dos seus cuidados, Dr. Mas não entendi ainda pq está tão tenso.

Ele enfim largou o bigode e o pano. E começou a estalar os dedos.

- Tenho um paciente confeiteiro. Coitado... engordou 70kg desde que deu início a sua profissão. Não consegue largar os doces e não pode ver glacê sem comer glacê. Fica trêmulo e agressivo. 

Reparei então que ele tentava estalar novamente os dedos já estalados. Enrolava os bigodes, passava o pano na mesa e começou a roer as unhas. Eu, só observava.

-Ontem atendi uma Operadora de Telemarketing que mais parecia uma Ura eletrônica. Falava: - Dr, se estou depressiva, diga: 1. Se estou com transtorno de ansiedade, diga: 2. Se estou tendo surtos psicóticos, diga: 3. - Perdi a conta dos gerúndios e dos "só um momento por gentileza" ela usou. Tenho um paciente que é Administrador. Ele tem uma planilha de Excel dos medicamentos que toma e a atualiza a cada comprimido ingerido. A outra, é dona de casa. Certa vez ela cismou que precisava lavar o banheiro do consultório antes de usá-lo.

Observava aquilo tudo em silêncio tentando entender onde o Dr. queria chegar. Ele já estava de pé, andando em círculos e roendo as últimas unhas.

- Imagino que sua profissão não seja nada fácil.  Lidar com isso tudo diariamente deve ser complicado mesmo. O Sr já...

Eu iria sugerir um psicólogo. Mas me calei imediatamente quando o Dr. sentou no chão, levou as mãos a testa, começou a chorar e voltou a falar com a voz mais alterada.

-Esse é o problema!  Muitos pacientes com problemas psiquiátricos diariamente. O criminalista virou bandido. O confeiteiro engordou. A atendente virou Ura. O administrador administra até os remédios na planilha. A dona de casa quer lavar o meu banheiro. E eu? Diz pra mim, qual será o meu destino? Trato de loucos portanto vou ficar louco. Vou desenvolver transtornos psiquiátricos. Vou ter crises de ansiedade, síndrome do pânico, TOC, ser internado numa clínica psiquiátrica e morrer. Eu vou morrer! Vou morrer insano e preso a uma camisa de forças. Logo eu, que dediquei a minha vida às neuroses e psicoses alheias.... Era tudo mentira! É contagioso sim!  Vou morrer louco!

E chorava, deitado no chão, em posição fetal. Eu olhei o relógio e percebi que meus 45 minutos de consulta tinha acabado. Eu não faria hora extra de graça. Sem saber o que fazer e vendo a real necessidade de um sossega leão para acalma-lo, ministrei alguns medicamentos que ele tinha na gaveta para amostras grátis, em dosagens que ele mesmo recomendou. Fiz com que ele deitasse na maca e pedi que a secretaria remarcasse os pacientes. Ele dormiu. Saí dali correndo deixando apenas uma recomendação para a secretaria... Não saia daqui enquanto ele não acordar! Ela ainda me falou alguma coisa mas fugi dali tão rápido que, de fato, não entendi.

Acho que deveria ligar e saber como ele ficou. Mas, cara, na boa...  Como é que eu vou dizer a um psiquiatra que ele enlouqueceu, que aquilo que ele tanto temia, já aconteceu. É, o Dr. Surtou!


quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Sala de espera

  Se tinha uma coisa que eu detestava era ir a médico ou dentista. Não pelo medo dos profissionais ou dos diagnósticos, mas pelo longo tempo perdido nas salas de espera. Esse tempo longo, parecia interminável. Era sempre a mesma coisa. Aquela música de fundo ou a tv ligada, quase sem som, um verdadeiro exercício de leitura labial. Eu, sempre muito agitada , ficava tentando arrumar uma desculpa pra ser atendida na frente de todo mundo ou pra remarcar a consulta logo no primeiro horário de um outro dia qualquer. Até que um dia, precisei consultar um psiquiatra.
    Cheguei no consultório e entreguei meus documentos pra secretária. Sentei. À minha esquerda havia um casal. A moça espremia os cravos do rapaz enquanto ele abria e fechava a pulseira do relógio. À minha direita havia um senhor. Acredito que no caminho pro consultório, ele tenha adquirido o seu primeiro celular. Pq? Então.... Ele escolhia uma campainha pras chamadas recebidas. Ligava pra alguém e dizia:
  - Querido, me faz um favor. Retorna pro meu celular. Preciso fazer um teste.
  A pessoa provavelmente pensava que o celular dele estava com algum problema e ligava. Tocava aquela campainha super alta que ele fazia questão de ouvir quase até o final. Quando ele finalmente atendia...
  - Obrigado, querido. Já tirei minha dúvida!  -  Acabou? Não. Ele escolhia outra campainha e repetia todo o processo. Ah, muito inteligente, ele sempre ligava pra pessoas diferentes.
  No sofá da frente havia uma moça com um menino. O garoto usava sua arma imaginária para acertar a secretária. A secretária fazia caretas para o menino. Sabe aquelas caretas que as crianças fazem pra outras crianças quando elas não se gostam? Dando língua e mostrando os dentes? É, assim mesmo. A moça que acompanhava o garoto estava ali só de corpo presente. Ela usava fones de ouvido, balançava a cabeça com os olhos fechados e cantava num idioma que eu não identifiquei até hoje. E desse jeito, eles permaneciam até que o médico os chamassem pra consulta. Comecei a mudar o meu conceito sobre salas de espera. Percebi que observar os outros podia ser divertido.
  Chegou a minha vez e pensei "A diversão acabou. " Até que reparei que o médico provavelmente tinha TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo). Depois de cada frase que ele concluía, enrolava as pontas do bigode. Sempre que eu tirava as mãos da mesa, ele limpava o local com um lenço de papel descartável e álcool gel. Percebendo isso, comecei a apoiar e tirar a mão da mesa cada vez mais rápido. E com isso, ele gastou uns 15 lenços e meio litro de álcool. E eu, que procurei ajuda profissional temendo uma crise depressiva, a essa altura tinha lágrimas nos olhos consequentes das gargalhadas que eu tinha que engolir.
  Passei a observar as pessoas nas salas de espera. Aguardar a minha vez havia ficado divertido principalmente nos consultórios de Psiquiatria e Psicologia. Percebi que médicos, psicólogos e as respectivas secretárias também não são lá muito normais. E assim eu me encontrei. Em meio aos não tão normais, comecei a ver graça também nas minhas loucuras. E cara, na boa,  as salas de espera de psicólogos e psiquiatras passaram a ser um dos meus programas favoritos.