Sofrer qualquer tipo de transtorno de ansiedade é difícil. Sofrer de múltiplos transtornos de ansiedade, é quase impossível, é realmente enlouquecedor!!!
Resolvi parar de brincar. Não vou mais procurar meu psiquiatra antigo. Consegui convencê-lo de que não preciso de remédios e, tenho certeza que contribui com o surto que ainda o mantém internado na psiquiatria - Cara, Na Boa, essa foi a maior ironia do destino que já presenciei. Mas vamos lá....
Estava tendo crises de ansiedade frequentes. Cada vez mais fortes e com intervalos cada vez mais curtos entre uma e outra. A crise em si, costuma levar de 30 a 40 minutos. É impressionante a quantidade de coisas que uma pessoa, durante uma crise, consegue pensar, questionar e sentir. "Quero levantar daqui Não sei por onde começar. Não tem como dar conta de tudo sozinha. O que eu fiz com a minha vida? Será que tem conserto? Quem eu sou? Do que eu gosto? Será que vou conseguir terminar a faculdade? Porque "fulano" fez isso comigo? Isso não é justo! Meu coração ta acelerado, acho que vou infartar. Mas se eu infartar, quem vai cuidar dos meus filhos? To na cama de novo e a hora ta passando... Que droga, que saco, quero minha mãe, quero morrer! Nem morrer eu posso! ".... E por aí vai. São 40 minutos em que a mente não te da um segundo de descanso. O coração acelera, o oxigênio falta, as mãos transpiram... é HORRÍVEL!
Sem mais forças pra lutar contra isso tudo sozinha, liguei para um psiquiatra muito bem recomendado e consegui um horário para o mesmo dia. Valor da consulta: R$200, 00. Eu não tinha duzentos reais sobrando... Consequência disso.... : "Que bom que consegui marcar pra hoje mesmo. Como vou pagar? Vou tirar do dinheiro das despesas da casa. Mas e as despesas da casa? O mais importante agora é a minha saúde depois vejo as contas. Mas e se as contas vencerem e eu não tiver o dinheiro? Vou me arrepender de ter pago a consulta. Isso é falta de responsabilidade de minha parte. É, não posso ir ao médico. Aliás, nunca posso nada. Nem pra minha saúde. Mas eu vou assim mesmo. E se ele mandar eu tomar remédios. Ah, eu nunca tomei remédios... vai me passar algo bem fraquinho... É, eu vou. E a crise foi melhorando. Exausta disso tudo o dia todo, dormi. Se é que eu durmo... Costumo dizer q morro ao invés de dormir. Eu apago. Pesado! Essas crises me deixam sem forças!
Acordei faltando 40 minutos pro horário da consulta. E advinha!?!?! "Não era pra ser. Não vai dar tempo. Isso é um sinal. É a última chance pra eu desistir. Vou gastar o que eu não tenho. E remédio.... tenho medo de remédio. Tá chovendo. Não é pra eu ir." Mas o desespero de uma terceira crise no mesmo dia me fizeram ir.
Cheguei já na minha vez. Não aguardei nem 3 minutos pela consulta. O médico me perguntou um monte de coisas. Anotou tudo. Excelente médico. Até que eu percebi ele puxando um receituário azul, pra remédio controlado... Me passou um remédio terminado em "PAM". Hahaha... "Dr. é tarja preta? Benzodiazepínico? Ah não.... Fiquei maluca mesmo.... Dr., quantos "TSAs" eu desenvolvi? Vou me viciar nesse remédio? Vou dormir e nunca mais acordar? A que ponto eu cheguei... " Desci do consultório desolada. Entrei na farmácia, pedi o remédio.
Olhava a caixa do remédio, olhava a vendedora da farmácia, olhava a caixa do remédio de novo.... enquanto ela falava algumas coisas que deveriam ser o valor da medicação etc. Preenchi aquela receita, paguei e fui pra casa.
Coloquei a caixa do remédio em cima da mesa da cozinha. Assustada. Nunca havia tomado nada tão forte. Ficamos ali, sozinhos por alguns minutos. A caixa e eu, nos conhecendo melhor. Enquanto ela emitia um "me abra" telepaticamente, eu emitia um "não sei não ", da mesma forma. Depois de um tempo e muita persistência da caixa, abri. Foi então a vez dos comprimidos emitirem vozes pra minha mente dizendo "Toma-me. Vai te fazer bem." Pensando como objetos inanimados estararim conseguindo penetrar minha mente atormentada, resolvi tomar logo antes de precisar além de ansiolíticos, de antipissicóticos!!! Tomei!
Mas ainda não acabou! Melhorei mas... "Até quando eu vou precisar disso? Não vou tomar esse remédio a vida toda não. Será que vai perder o efeito e vou ter que tomar outro mais forte? Será que um dia poderei substitui-lo por florais, homeopatia, meditações e incensos?...."
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sábado, 5 de dezembro de 2015
sábado, 17 de outubro de 2015
O doutor surtou!!!
*Para total compreensão da crônica a seguir, recomendo a leitura de "Sala de espera", publicada dia 03/09/2015.
Em poucos minutos percebi que ele estava particularmente transtornado. Tentei prosseguir com a minha consulta, em vão. Sutilmente, fiz o médico de cobaia num breve estágio.
- Dr, percebo que está tenso. Algum problema? Posso ajudar? Posso lhe ouvir, se quiser.
- Reparou no paciente que saiu do consultório ainda agora?
-Não, Dr. Porque?
- Ele é um advogado criminalista. O problema é que.... deixa pra lá. Não posso expor um paciente.
- Como quiser, Dr. Porém, se for realmente necessário desabafar, pode contar com o meu sigilo.
Continuamos (ou melhor, tentamos continuar) a consulta. Mas ele não conseguia se concentrar. O suor pingava da testa. Uma mão permanecia no bigode enquanto a outra passava o perfex na mesa (intensamente, sem intervalos. E olha... Eu me controlava para não apoiar as mãos, a fim de não provoca-lo dessa vez!). Um pé batia no chão em um ritmo frenético. Eu, presenciando aquela agonia também não conseguia falar sobre o que precisava.
- Posso confiar em você? Preciso falar. Mas a ética...
- Dr, o que for dito aqui no consultório permanecerá aqui. Fica tranquilo. O que houve?
-Esse paciente que te falei. Criminalista. De tanto defender e conviver com bandidos, começou a praticar alguns delitos também. Ele diz que faz sem perceber e que já é incontrolável. A última dele foi furtar da farmácia algumas caixas do remédio que eu o receitei.
- Ele realmente precisa dos seus cuidados, Dr. Mas não entendi ainda pq está tão tenso.
Ele enfim largou o bigode e o pano. E começou a estalar os dedos.
- Tenho um paciente confeiteiro. Coitado... engordou 70kg desde que deu início a sua profissão. Não consegue largar os doces e não pode ver glacê sem comer glacê. Fica trêmulo e agressivo.
Reparei então que ele tentava estalar novamente os dedos já estalados. Enrolava os bigodes, passava o pano na mesa e começou a roer as unhas. Eu, só observava.
-Ontem atendi uma Operadora de Telemarketing que mais parecia uma Ura eletrônica. Falava: - Dr, se estou depressiva, diga: 1. Se estou com transtorno de ansiedade, diga: 2. Se estou tendo surtos psicóticos, diga: 3. - Perdi a conta dos gerúndios e dos "só um momento por gentileza" ela usou. Tenho um paciente que é Administrador. Ele tem uma planilha de Excel dos medicamentos que toma e a atualiza a cada comprimido ingerido. A outra, é dona de casa. Certa vez ela cismou que precisava lavar o banheiro do consultório antes de usá-lo.
Observava aquilo tudo em silêncio tentando entender onde o Dr. queria chegar. Ele já estava de pé, andando em círculos e roendo as últimas unhas.
- Imagino que sua profissão não seja nada fácil. Lidar com isso tudo diariamente deve ser complicado mesmo. O Sr já...
Eu iria sugerir um psicólogo. Mas me calei imediatamente quando o Dr. sentou no chão, levou as mãos a testa, começou a chorar e voltou a falar com a voz mais alterada.
-Esse é o problema! Muitos pacientes com problemas psiquiátricos diariamente. O criminalista virou bandido. O confeiteiro engordou. A atendente virou Ura. O administrador administra até os remédios na planilha. A dona de casa quer lavar o meu banheiro. E eu? Diz pra mim, qual será o meu destino? Trato de loucos portanto vou ficar louco. Vou desenvolver transtornos psiquiátricos. Vou ter crises de ansiedade, síndrome do pânico, TOC, ser internado numa clínica psiquiátrica e morrer. Eu vou morrer! Vou morrer insano e preso a uma camisa de forças. Logo eu, que dediquei a minha vida às neuroses e psicoses alheias.... Era tudo mentira! É contagioso sim! Vou morrer louco!
E chorava, deitado no chão, em posição fetal. Eu olhei o relógio e percebi que meus 45 minutos de consulta tinha acabado. Eu não faria hora extra de graça. Sem saber o que fazer e vendo a real necessidade de um sossega leão para acalma-lo, ministrei alguns medicamentos que ele tinha na gaveta para amostras grátis, em dosagens que ele mesmo recomendou. Fiz com que ele deitasse na maca e pedi que a secretaria remarcasse os pacientes. Ele dormiu. Saí dali correndo deixando apenas uma recomendação para a secretaria... Não saia daqui enquanto ele não acordar! Ela ainda me falou alguma coisa mas fugi dali tão rápido que, de fato, não entendi.
Acho que deveria ligar e saber como ele ficou. Mas, cara, na boa... Como é que eu vou dizer a um psiquiatra que ele enlouqueceu, que aquilo que ele tanto temia, já aconteceu. É, o Dr. Surtou!
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